sábado, 3 de abril de 2010

A caixa da loja de conveniência

Imagine-se na seguinte situação: é um sábado chuvoso, pouco antes da hora do jantar e você estaciona num posto de gasolina para comprar algumas cervejas na loja de conveniência. Depois de escolher suas latas, vai para o final da fila com umas cinco pessoas na sua frente. Enquanto espera, analisa a distância que terá que percorrer com os olhos e eles se fixam no ponto final dessa linha, a caixa. A moça jovem do outro lado do balcão cheio de balas e chocolates esconde seus cabelos negros, secos e ondulados com um boné, mas sem prestar atenção deixou que a ponta do rabo de cavalo preso de qualquer jeito escapasse para fora. Suas orelhas com brincos de argola tamanho médio ganham um certo destaque ao passar por cima do volume do pano grosso que lhe cobre a cabeça. Mas, apesar de pequenas, são relativamente proporcionais ao resto do rosto que também é pequeno, além de fino e alongado. O nariz é o que chama mais a atenção. Tem a ponta dividida em três partes e se junta ao resto da cara ocupando uma área menor do que deveria. Abaixo dele dá pra ver, mesmo a longa distância, uma leve faixa acinzentada indicando alguns pêlos talvez um pouco mais longos do que o razoável.

Enquanto a fila anda, você ainda se detém no rosto dela. O maxilar bem definido e arredondado não se alonga o suficiente para permitir que tenha um queixo bem pronunciado, mas, acima dele, os lábios tem um contorno bonito e saltado, apesar de machucado em algumas partes e escondido por um batom rosa opaco. Mais um passo na fila e a voz passa a ser audível. O gerúndio usado sem parcimônia e, em algumas palavras, o r é arrastado. O volume da voz varia conforme sua cabeça, presa a um pescoço muito fino, se mexe para cima ou para baixo, alternando o olhar entre a gaveta do dinheiro e os clientes. Fala muitas palavras por atendimento, mas isso, certamente é ordem do chefe porque, naturalmente, não gosta de falar muito, a não ser que o assunto seja a vida de outras pessoas. Quando o último cliente a sua frente faz uma piada infame com relação a sua conta ela exibe o aparelho dentário fixo em um sorriso amarelo, mas não deixa de retrucar com algum comentário que adicionou a seu repertório de respostas ao longo da experiência que adquiriu na função. Quando a sua vez chega, você ouve mais uma vez todo aquele discurso padrão que já a ouviu falando para os outros, mas agora percebe como sua voz é fina e sua língua quase imperceptivelmente presa. Enquanto o dinheiro troca de mãos você observa aquelas sobrancelhas finas engrossadas com pelos não retirados a sua volta, mas olha dentro de seus olhos castanhos e inocentes quando ela volta a levantar a cabeça. Seu olhar desce pela camisa cinza escuro de manga curta, abotoada até o último botão, passa por seu braço com uma pelugem abundante e se detém em seus dedos com unhas roídas e pintadas com um rosa claro parecido com o do batom. Lá está seu troco. Você pega o dinheiro, põe no bolso e vai embora, enquanto ainda a ouve dizer, agora um pouco mais alto, um obrigado e volte sempre.

Um comentário:

Sergio disse...

gostei desse blog. continue escrevendo e eu vou entrar mais vezes. abraços